quarta-feira, junho 22, 2022

A espiral do inferno

Há alguns dias a tentar sair do inferno

desde que cheguei em Milano

sabia que estava a ir para o inferno

a circular tonta pela cidade

a não querer depender de ninguém para não 

ter de ver e ouvir o que ouvi

bom, a boda

mas todo elitismo de merda que ali parecia ser ganhar

bolsas e jóias e dinheiro

na loteria pareceu-me nada disso

entendo que Dante começou pelo inferno 

a subir para sair do fosso

fiorentino

o Arno tava mais a parecer um rio que fervia

que evaporava os vapores a nos impedir a

respirar

eu não vi cerimônia nenhuma

estava tudo uma grande portão de ocre fechado

e corredores vazios

parecia que era um labirinto que ninguém 

queria contar-me

e muita gente ali já desistiu de sair dos vapores a sufocar

as mesas separadas

um grande apartheid

vi o momento que minha amiga estava sozinha a mesa

sem o noivo, ele de preto

foi um pouco desolador

sinceramente faz dias que estou a tentar sair dos aros

infernais

presa em Malpensa a mais de 24 horas

Vírgilio apareceu e me ajudou a seguir a viagem

a subir para a floresta

por que amigos mesmo

são aqueles que nos amam

no mais e guiam-nos para fora dos aros 

Itália é uma tentativa de saída do inferno

o caos de Nápoli

era menos infernal

que o fiorentino, com turistas zombies nas lojas Gucci, Prada, Dior

afinal estão a burguesia no inferno a comprar coisas inúteis

para parecerem demónios arrumados

sem sombras

sem árvores

sem ar

e estátuas 

e arte que lá está

parece que já está morta

que só se vê se se paga bem

no mais

é o Arno a evaporar vapores do inferno

e na sombra já é difícil respirar

sem sombra então, estarás a decompor-se

a queimar até virar cinza

achei grande tolice

a falta de base 

e de educação

e a mãe a me dizer que eu que estou a

estudar

perdi na loteria

pra quem estava a ganhar

ouvi calada

e consegui sair da espiral

o avô monstro a abusar da neta

a revolta

a revolta da pobreza

a falta a falta a falta de amor

os desaforos que são necessários ouvir

pra conhecer quem é quem

dormi no chão do Malpensa

e voltei outra

agora ainda mais

se não for verdadeiro amor

e se não for evidente para mim o

sentimento de amor verdadeiro

é inferno.

Punto e basta.

E Firenze é linda a noite, quando não há turistas

e se vê a história.