Há alguns dias a tentar sair do inferno
desde que cheguei em Milano
sabia que estava a ir para o inferno
a circular tonta pela cidade
a não querer depender de ninguém para não
ter de ver e ouvir o que ouvi
bom, a boda
mas todo elitismo de merda que ali parecia ser ganhar
bolsas e jóias e dinheiro
na loteria pareceu-me nada disso
entendo que Dante começou pelo inferno
a subir para sair do fosso
fiorentino
o Arno tava mais a parecer um rio que fervia
que evaporava os vapores a nos impedir a
respirar
eu não vi cerimônia nenhuma
estava tudo uma grande portão de ocre fechado
e corredores vazios
parecia que era um labirinto que ninguém
queria contar-me
e muita gente ali já desistiu de sair dos vapores a sufocar
as mesas separadas
um grande apartheid
vi o momento que minha amiga estava sozinha a mesa
sem o noivo, ele de preto
foi um pouco desolador
sinceramente faz dias que estou a tentar sair dos aros
infernais
presa em Malpensa a mais de 24 horas
Vírgilio apareceu e me ajudou a seguir a viagem
a subir para a floresta
por que amigos mesmo
são aqueles que nos amam
no mais e guiam-nos para fora dos aros
Itália é uma tentativa de saída do inferno
o caos de Nápoli
era menos infernal
que o fiorentino, com turistas zombies nas lojas Gucci, Prada, Dior
afinal estão a burguesia no inferno a comprar coisas inúteis
para parecerem demónios arrumados
sem sombras
sem árvores
sem ar
e estátuas
e arte que lá está
parece que já está morta
que só se vê se se paga bem
no mais
é o Arno a evaporar vapores do inferno
e na sombra já é difícil respirar
sem sombra então, estarás a decompor-se
a queimar até virar cinza
achei grande tolice
a falta de base
e de educação
e a mãe a me dizer que eu que estou a
estudar
perdi na loteria
pra quem estava a ganhar
ouvi calada
e consegui sair da espiral
o avô monstro a abusar da neta
a revolta
a revolta da pobreza
a falta a falta a falta de amor
os desaforos que são necessários ouvir
pra conhecer quem é quem
dormi no chão do Malpensa
e voltei outra
agora ainda mais
se não for verdadeiro amor
e se não for evidente para mim o
sentimento de amor verdadeiro
é inferno.
Punto e basta.
E Firenze é linda a noite, quando não há turistas
e se vê a história.