quarta-feira, novembro 10, 2010
Vermelho!
Vermelho é quando eu mordo,
sádica eu gosto do tom vermelho cor das marcas que deixei...
Em quem foi? Nem sei...
É boca que aspira o gosto, do tom vermelho dos teus lábios.. que lábios??
Poderiam ser fiéis, vermelho fiel...parece meio cruel..
No vermelho misturam as línguas mudas.
Eu, olho o verde, mas quero o vermelho, queimando em mim...
A face pede, vermelho de dentro de mim..
Pareces tranquila, linda pálida, vira ao avesso pede vermelho,
pede negro, pede o beijo....cor..
É o extremo vermelho, na margem vermelha, no fundo vermelho do gosto que fica
na garganta, na ponta...
Onde estás? quem és? vais voar?
Duma névoa vermelha, seca o teu ar sopra...
Donde está a saliva, aquela que precisas beber?
Vermelho é o teu desejo, queima, arde...
Pulsa...
sábado, outubro 30, 2010
Pro meu coração
há, no meu corpo,
um resto do seu perfume, adocicado,
e na minha pele uma suave pressão
lembrando a atenção dos seus lábios.
Há no meu coração
um leve aperto, um descompasso
no ritmo das batidas, que era ditado
pelas batidas do seu coração.
Princesa,
há nos meus olhos
a sua imagem perfeita
retratada com as cores
do meu amor.
Princesa,
em minha vida,
nessa minha vida
tão bem vivida,
só você
é real.
Quando estou com você,
gosto de andar do lado de fora da rua,
deixando-a no canto,
protegida.
Gosto de colocar a minha blusa em seus ombros para que não sinta frio
enquanto caminha na noite, sob as estrelas.
Eu gosto de abrir a porta
para que você passe primeiro
e gosto de vê-la passar por mim.
Eu gosto de lhe dar o braço
quando está de salto
em um piso ruim de andar.
Eu gosto de tratá-la como uma dama,
uma princesa, uma mulher...
e de sonhá-la minha
mulher.
Eu gosto de senti-la única
e de só ter olhos para vê-la e
de dizer: você é linda,
uma criança linda!!!!
Como pode ver,
estou mesmo ficando cada vez mais velho.
E cada vez mais antigo.
Ah, como eu gosto de você.
J. Araújo
Eu sinto o amor!!! Um amor que tbm quero dar!!
Dois
vou colhendo...
o azul do céu com o mar...Respirar, ser aquilo que sou...
Voar, fazer amor com o tempo...com o estranho, aquele que me era somente muito estranho...o outro...o mundo.
Tudo se torna muito rico, quando se percebe que não precisa ser tão simplório, talvez eu possa acostumar-me a sentir tudo isso...deveria.
Sou demasiado orgulhosa para acreditar no amor.
Estou supondo saber quem sou eu.
Amar alguém na minha condição, não sei ainda o que ver...se tudo é mera projeção.
Depois de mentir, o perigo está ali.
Como tornar o sonho que sou??
S. Araújo
Oferenda
É tua minha vida.
São teus os meus sonhos, meus sorrisos,
a minha fome de amor,
a minha dor e o meu ser.
É tua a minha vida,
seguindo a que levas
indiferente aos gritos de amor
que te envio.
Enquanto houver
um leve sopro de força, em mim,
física ou mental,
será tua a minha vida,só tua.
Em troca, não te peço nada,
nada mesmo, nem que me aqueças,
em teus braços amorosos,
nem que me dês a tua fala.
Quero-te, eu, e vivo disto,
já que me sinto em meu desejo,
dedicando-te o que possuo
em mim, e no meu mundo.
É tua, a minha vida,
e nada mais me importa,
se no silêncio da noite em que estás,
posso amar-te, sorrindo, mais e mais,
como alimento e paz,
e como um sonho.
J. Araújo
sexta-feira, outubro 22, 2010
Em cárcere vociferei...injuriada
logo sairão os cavalos para o espetáculo, tudo se completa..
arriscar, não é só coito, eu só quero luxuriar...
liberdade, liberdade.. dá pra fazer, dá pra ser..nem dá pra dar...
é tempo de recostar, encostar-ser...comodamente num chão de granito, granadilho...
Logo é praia, é sol, mar, e só queres apresentar, atacar, ter o gozo como posse...
És a pura ânsia de dissolver, o que é isso?
é muita matéria? é pré prova? que grande comoção pra suceder alguma coisa, nem que seja somente aflição...ah vai... dê-me uma sova, já estudei, arrumei casa, fiz café, bolo, internet, escrevi, li mas eu só quero ir ali...pra rimar e ficar, ruminar e gozar...nem é pra gostar de mim, eu, crápula até que gosto, do que posso tocar e só..nem é...é provar, mastigar, engolir e esperar pra ver se vai saciar...
nem vai, que eu sei...eu já provei, e sempre quero provar de novo...ah..é fogo...que arde..e blá blá blá...
é sexta, e nem vou sair, eu vou exabundar, gostei.....ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhaaaa
o que é isso aqui?
banho, banho é bom...hahaha
melhor correr...
não quero terminar, correr daqui umas duas horas...
no crepúsculo
prolixo...pernilongo, eu te mato, seu safado!
Cade você?
Você está aqui e não consigo ver...
ah vai se fuder...
eu não quero saber...eu amo você? amo merda nenhuma..
eu amo a mim, vai se danar, seu fantasma alegórico...
terça-feira, outubro 19, 2010
Salve o azul!
Iluminada Madona..
não é um absurdo, não há retenção..
A satisfação do desejo não foi uma invenção.
O dia se fez pleno, quantidades, qualidades...prazer, desprazer, equilíbrio...neurônios sãos...
Não se muda a crença, a relação...ou muda? Sim, mudam as relações.. fazem amor esses novos, afinal pra que conter a energia, por pura prevenção?
Medo? alucinação...tudo sonho, traição da razão...do inconsciente...aliviar o que agora???
Não há nada...tudo é hoje, agora!
Parece estranho, fazer as pases...a vida retribui, e como!
Não precisas resistir...
O vício da resistência, resiliência, amostras frequentes de oposição do próprio processo..Infantil inibição, defesa, retrocesso.. Sem acesso à realidade, ao próprio desejo. ok. Chega de inércia, elimina toda tensão..
Acesso..retorno, conforto, encontro.. Satisfação!
Ah..distinção, alucinação e realidade.
É pura liberdade!
sábado, outubro 16, 2010
Escolhe ficar em casa, tem escolha?
não era bom mesmo.. que bom tem escolhas...
sábado a noite, essas horas é bom Dark side of the moon...por um tempo.. tem filme aí, comédia, bom também, nessas horas..
Quero um que ame.. No encontro do sem vício, da lunática, lembra dos jogos?
lembra da morte? do outro?
A vida...e tudo isso é maravilhoso..
Bem que eu queria que estivesse aqui..não sei bem quem...é, você, os mesmos, velhos medos...
Fecha a cortina.
Olha nesses sábados, merecem tanta melancolia?? Besteira! ainda chove, que propício,
bem Sâmara...
Ah não é tão ruim assim, não é possível viver assim duas vezes!! Pode ser sonho,
sem relação é só aparição, pensa assim,...aparece pra mim...aparece pra mim...sonho, amor que eu nunca mais verei...nunca mais sonhei...é só fantasma.
Onde você mora?
Eu já mudei, eu vou embora...
sábado, outubro 09, 2010
Ter o ser escravo de si, o medo contido, a fuga estava em mim.
Formando para tornar o ser para si próprio, chegando enfim
para ter consciência de si e para fora. Tecer o próprio destino, agora sim. Eu me pergunto
foi sempre assim? Nem sei, depois de um sono acordei. O outro...?
Eu tenho o Sol, as estrelas, tenho o mundo girando em torno de mim, da minha cabeça,
dos meus sonhos, a minha realidade parece mais importante que tudo lá fora,
as minhas inspirações são tão íntimas...
terça-feira, outubro 05, 2010
sexta-feira, setembro 24, 2010
É deixa eu falar do meu comparsa..
tá bom, a pessoa que pensa, não come,
pipoca.
Não vamos remoer, como ratos, juntar papéis, acumulando lutas, projeções falhas, a mesma merda que aflige...não precisa dizer que tá tudo bem, está tudo bem, alegremos a vida, uhu!!!Acho que era pra gente ter bebido..Nossa to surtando!É um rascunho intão,tudo a lápis..
oiô oiô, eu já sei que não dá pra apagar,
vai ficar tudo aqui, guardado...acumulando, acumulando...tudo vai ser melhor...Prevendo escolhas erradas e certas, e por aí..Que vontade de você, que vontade da vida. ahaaaa demorou, vai ser melhor..
Tive razão,posso falar...
Sâmara e Jenyfer,no auge do surto....
quinta-feira, setembro 16, 2010
A imagem do ego
eu amo
eu devo
eu atrevo
eu quero
eu busco
eu sigo
eu miro
eu percebo
eu reflito
eu afloro
eu enveneno
eu padeço
eu canso
eu resisto
eu critico
eu minto
eu fujo
eu respiro
eu fico
eu oculto
eu mudo
eu ilumino
eu rio
eu devo
eu pago
eu interpreto
eu morro
eu padeço
eu vingo
eu sacrifico
eu vivo
eu renasço
eu raciocino
eu filosofo
eu permaneço
eu elogio
eu amo
eu converso
eu sinto
eu apaixono
eu liberto
eu avalio
eu conduzo
eu exercito
eu encontro
eu gozo
eu cuido
Independência do Brasil....
deu pra tirar um pouco do preto do cinza insistente...
Faço contas, a forma mostra mais beleza,
a filosofia se faz na conversa com o mundo.
O olhar é meu, o espelho também. Procuro aquela liberdade que faz o mundo
ser pequeno demais, tem muito pra se conhecer...
Os meus espelhos já não refletem a mesma imagem, e não procuro em ti o que há em
mim, conclusões bastante úteis...num fim de ponderação numa vida,
a minha, que é mais que uma aventura, uma loucura...
A alma busca refletir o novo, o antes interessa só pra não se repetir e saborear, sofrer.
Basta!
Será preciso um purgatório agora?
Não, o querer é meu, flutuando nos meus humores histéricos, obssessivos, compulsivos...
Tomo as rédeas, é o momento certo, a escolha certa, a vida que eu escolhi (em termos) e escolho.
Ainda é momento de definição? será?
Acho que sempre...
Escolho o que querer, (?!) livre uso esse sentimento para buscar e conhecer... Afinal o mundo é pequeno pra quem é free...
segunda-feira, junho 28, 2010
No limbo
à luz da razão não vale a pena tirar conclusões,
seriam tristes...
Num relance sente-se a retirada,
num último círculo..
Para enfim dizer: Eu lá fui!
Para o meu bem não há quem possa seguir,
não há mais guias...
Saio do inferno,
para subir aos céus.
sexta-feira, maio 21, 2010
Desalento
não dá pra ser a mulher sem passado, e sem essa de remontar o discurso trágico...
A vontade mesmo é de se comer, comer o outro, traçar tudo...come-come...
A filosofia nunca dá. Vai se ferrar,
não é amar, nem prazeres fugazes...é um não sei o quê, que falta...
não é filho, nem marido, nem mãe, nem pai...
O coração pulsa, pulando no peito pede, pede, pede?????
Corre, oxigena o cérebro...
Eu preciso fazer amor,
preciso fazer amor,
Where is the love?
Desalento,
total desalento...
O que tá pegando?
É um não se encontrar com o outro,
é idealizar o outro.
Não dá ainda pra saber o que quer dá vida?
Putz....
Adrenalina, é....
no drugs,
que caminho?
esse que tá rolando mesmo?
o que falta?
o eterno retorno..
tornar-me o que sou,
que sou, que soou...
O caos, o perigo, o anjo, o eu...
quinta-feira, maio 13, 2010
Relatórios que não existem
sem saber o quanto a vida pode ser tão rara.
O príncipio do fim,
que já começou faz um tempo,
determinado; em média...
Fazer o quê da vida?
Encontrar-se consigo num momento imaginado.
Olhar pra dentro, expelir toda fumaça,
abrasar-se em chamas.
A beleza só existe nos meus sonhos, no mundo das ideias...
Ah sim...sou naturista,
e daí? natureza...beleza...pobreza...
A vida é tão rara, e jogo-a num canto do quarto,
nas tendas dos homens que vendem, vendem...
Já não ensinas, não ensinas nada,
não aprendes, não muda...sim mudam...muda...
Tonterias,
Não és precisa,
vá direto ao ponto,
eu não sei...
não aprendes.
O que tendes a fazer?
Relatórios???
ahahahahahahaa
terça-feira, abril 20, 2010
...Correndo do sonho...
vou ficar, e não fugir...
não correr das responsabilidades,
dos amores, dos filhos, dos homens,
das mulheres, do psicológo, da boa forma,
nem de mim...
Continuarei na incerteza, claro, e sempre de
todas incertezas dos amanhãs...
Na incapacidade de planejar, no medo de planejar
e falhar...e na certeza de ter a imagem nas mãos
sem vislumbrar qualquer mudança que não seja mera
fatalidade...
Refém das fatalidades, a famosa vítima de si mesma...
É tudo tão rídiculo, tão estranho, tão errado,
ter sempre o mesmo script pra interpretar...
Um dia eu mudo...um dia eu mudo,
ah...esperem...esperem bastante, ....eu espero...
um dia eu mudo,...
eu estudo, eu viajo, eu passo num concurso....
eu vou pra outro país, eu vendo minha alma ao diabo...
eu fico na merda...é esse lugar de gentinha pequenininha...idiotinha...
Volta pro psicológo, afinal já tá velha, o discurso melancólico já tá batido,
tá tudo muito repetitivo,
Chega!
O princípe virou sapo.
E aí vai voar???
Decola agora?
Dá pra ter pressa?
segunda-feira, dezembro 28, 2009
Emanuel
Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,
Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral?!
Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!
Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER!
De suspirar em vão já fatigado,
Dando trégua a meus males eu dormia;
Eis que junto de mim sonhei que via
Da Morte o gesto lívido, e mirrado
Emprega noutro objeto os teus rigores;
que esta vida infeliz está guardada
para vítima só de meus furores.
Já sobre o coche de ébano estrelado
Deu meio giro a noite escura e feia;
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!
Só eu velo, só eu, pedindo à sorte
Que o fio, com que está minh'alma presa
À vil matéria lânguida, me corte:
Consola-me este horror, esta tristeza;
Porque a meus olhos se afigura a morte
No silêncio total da Natureza.
Poderia vê-lo e amá-lo,
não pode sentir o meu amor,
sempre penso..
Eu o amo em minha imaginação,
vejo-o crescendo junto aos meus sonhos.
Sinto-o em meu peito e como seria abraçá-lo.
É só uma dor por não tê-lo visto existir aqui fora,
e saber que existiu em mim.
É estranho chorar por ti, e amá-lo ainda mais
Vê-lo tranformar-se em meu Salvador,
àquele que sempre fora
o meu Emanuel.
Augusto dos Anjos, Bocage e eu...
terça-feira, dezembro 22, 2009
Mudadadada...
as coisas ficam mais claras
até o cinza, o meu cinza...
Foi bom pra mim ter tido
esse fim, ? , cicatriz _na alma, na vagina, na vida_
acabou o amor fugaz que viveu na
espera de um filho.
Perder o que não pode ter,
não quisera ganhar da espécie?
Grite sua infeliz vitória..
Jogue na loteria agora, quem pode saber?
Continue a viver chapada com tanta fumaça,
e com os mesmos planos de antes de antes...?
O compromisso com a vida resume em ter compromisso
consigo mesmo. Muda-se tudo... muda a relação, muda eu,
muda o outro, mudamos nós, muda a vida.
E fico muda de novo.
quinta-feira, outubro 08, 2009
Dia pra tomar chá e escutar Pink Floyd...
falar das impressões de hoje...
Dos novos olhares,
mesmo que seja recolher o lixo, com o fedor dos restos de comida.
Na mesmice da vida doméstica,
eu não lembro se era assim que brincava de casinha,
de mamãe-papai...
Ainda assim num dia em que só chove, e recolhe-se o lixo, eu posso escutar música,
viajar, lembrar, conhecer...
Num saudosismo tão brega... lembro que não pude sair pra caminhar, estou presa!! ahahahahahaha
Vou beber um chá e fingir que não há tanta metafísica em mim...
Num estranhamento de fenômenos, domésticos com tanta paz.
Ah! Eu não estava acostumada em estar em paz...
Numa ridícula vida doméstica, na espera de um filho e de uma mãe.
Chá, chá....
domingo, setembro 20, 2009
Conselho do dia
fechada melancolicamente num mundo que criastes pra si.
Digo-lhe com toda certeza, precisas de um conselho,
e assim o faço a mim;
deves recorrer a uma filosofia fácil, sabes bem, aquela voltada ao senso
comum, incorre em ação...sabes que é essa que lhe fará bem...
Já és melancólica, não precisa de tanta metafísica, menina...
Menina nada...sem essa de apelo infantil.
Encontra somente incertezas em teus discursos,
já sabes estás segura num entendimento prático que o porvir lhe reserva.
Nasce vida em ti,
uma nova vida em si.
Sinto muito não sei quando poderá lutar por ti, os teus anseios mudaram de lugar
na lista das prioridades.
Uma boa notícia, permaneces viva, sobrevivente eu diria, não fugindo de toda a dramaticidade
casual...
Será que é a minha aniquilação? o que será meu eu diante do outro?
Será a possível luta pelo outro a base de minha força doravante?
Será, será....?
Não sei dizer se é mais bom que ruim,
recuso escutar o senso comum, o que vai ser inevitável...se sou o senso comum.
O que eu sou agora?
Sem conselhos por ora.
domingo, setembro 06, 2009
Inferno
e matar o mal é propriamente se ferir..
Quando não há auto-ajuda ou algum manual que venha ser de alguma valia,
até mesmo porque ignora-se todos..
Quando já se sabe a causa, os meios para algum fim otimista, mas com um discurso sempre
morno,
prestes a causar algum enjoô..
No fundo és egoísta, o seu próprio mal-estar insistente é um poço de egoísmo.
Fugiria de tudo e todos e logo depois se arrependeria, afinal você é o próprio inferno
em todos os lugares.
Vai chegar uma hora em que serás indefensável, se já não o és...
E permanece nos mesmos sonhos de fuga,
fugir de si mesma não se pode...
Sorria! O inferno não existe,
e olhe-se no espelho vê-lo em si
já causou transtornos demais.
sexta-feira, setembro 04, 2009
Romance LIII ou das Palavras Aéreas
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota...
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora...
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam...
Detrás de grossas paredes,
de leve, quem vos desfolha?
Pareceis de tênue seda,
sem peso de ação nem de hora...
- e estais no bico das penas,
e estais na tinta que as molha,
e estais nas mãos dos juizes,
e sois o ferro que arrocha,
e sois barco para o exílio,
e sois Moçambique e Angola!
Ai, palavras, ai, palavras,
íeis pela estrada afora,
erguendo asas muito incertas,
entre verdade e galhofa,
desejos do tempo inquieto,
promessas que o mundo sopra...
Ai, palavras, ai, palavras,
mirai-vos: que sois, agora?
- Acusações, sentinelas,
bacamarte, algema, escolta;
- o olho ardente da perfídia,
a velar, na noite morta;
- a umidade dos presídios,
- a solidão pavorosa;
- duro ferro de perguntas,
com sangue em cada resposta;
- e a sentença que caminha,
- e a esperança que não volta,
- e o coração que vacila,
- e o castigo que galopa...
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Perdão podíeis ter sido!
- sois madeira que se corta,
- sois vinte degraus de escada,
- sois um pedaço de corda...
- sois povo pelas janelas,
cortejo, bandeiras, tropa...
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Éreis um sopro na aragem...
Cecília Meireles
sábado, agosto 01, 2009
Macbeth,
sábado, junho 20, 2009
O que está feito, está feito...
às vezes, surge uma certa ambivalência
com momentos de aceitação e de rejeição
que se acompanham de um sentimento de culpa.
Quando meu filho nascer,
não façam desta vida um estandarte,
nem acenem para ele com esperanças de melhores tempos.
Não que a vida seja uma causa perdida,
pelo menos nunca sabida.
E a felicidade talvez seja uma causa velha..
Quem garante?
implore a si mesma...seja paciente...espere a vida.
O que pode querer uma mulher em seu estado?
Só poderá querer uma coisa... deverá que ser assim...
ES muss sein, es muss sein
sexta-feira, junho 19, 2009
terça-feira, junho 16, 2009
Desenvolvendo afetos
insanidade,
hormônios insólitos...
Pode também ser brisa,
com toda essa chapação.
Desenvolvendo tal maturidade no olhar
para a simplicidade fugaz da vida,
do tal milagre...
Percebendo tanta futilidade
antes mascarada.
O ser visto numa praticidade pura e
recebida por quem tanto apreciava o não-ser.
A vida bem-vinda,
os afetos invólucros,
crescem.
sexta-feira, maio 08, 2009
garota enxaqueca não terá mais tempo
pra mazelas...
Ah! conhecerá o amor incondicional...haha
É pra dar risada da espécie...é muita audácia!
A narração vai continuar no diário, no prazer e desprazer da
vida doméstica.
Pedia sentido, sentido...bem feito...agora tem.
Entender o valor do amor...haha bem feito, agora vai ser obrigada a sabê-lo.
sábado, março 21, 2009
sábado, fevereiro 28, 2009
O Pálacio da Ventura
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!
Antero de Quental
quinta-feira, fevereiro 05, 2009
Uma flor desidratada...
Que seu tempo passe.
Parece carecer de algo, ela é muito pobre, mas isso é o que ela é..
indelevelmente pobre...
Já não quer mais se levantar,
Os dias vão passando deitados,
nos olhos úmidos, numa casa onde não sabem o que é o amor.
O sentido de estar ali também não se sabe mais.
Como se existisse sem vontade, mas tivesse a lembrança do que poderia
vir-a-ser...
Não há mais pelo que chorar,
Já não está mais condicionada em nenhuma dor,
ainda sim tem as palpebras inchadas, talvez sejam lágrimas
aprisionadas...
Já não se questina a melancolia com que trata seus dias,
como uma flor desidratada, só espera que seu tempo passe...
Já não brinda à Dioniso, à nadie...
Permanece estática... tem preguiça até de seus pensamentos mórbidos...
O que há com essa vida que não sabe viver, senão como uma bulha?
Não sabe o que lhe falta para que possa enfim contemplar, que seja bucólicamente
pobre, que seja... mas lhe falta contemplação.
Onde está o desejo?
E o prazer?
Onde foi que ela perdeu aquela singular satisfação de viventes que se limitam em viver?
Ou que ela possa contentar-se simplesmente em ser...
Não que ela não seja interessante, ela é sim, ou o é o suficiente para desprezar quem quer
que seja, mas isso também é pouco, ou é nada.
Ela não sabe qual o atual problema, nem há problemas aparentes,
nem conceitos, há somente uma vida que já não busca sentido algum e como poderia deixá-la assim?
Sei que não quer inventar nenhum sentido,
por isso temo que seu tempo passe pobre assim...
quarta-feira, janeiro 21, 2009
Gozei...
Como se moço e não bem velho eu fosse
Uma nova ilusão veio animar-me.
Na minh'alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.
Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas ânsias de escalar o azul, tornou-se
Todo em raios que vinham desolar-me.
Vi-me no cimo eterno da montanha,
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.
Acordei do áureo sonho em sobressalto:
Do céu tombei aos caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto...
Alphonsus de Guimaraens
Sonetos pra eu gozar...
"Último Credo"
Como ama o homem adúltero o adultério
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro este ladrão
arrasta a gente para o cemitério!
É o transcendentalíssimo mistério!
o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um,
Que matou Cristo e que matou Tibério.
Creio como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolue...
Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui!
Augusto dos Anjos
terça-feira, janeiro 13, 2009
Fa-Fa-Fa
I need a shot
I need a shot of ambition
I need a hit
I need a hit of nutrition
I need a fix
I need to fix my ignition
If you want to whip me into shape
I need a plan or a mission
Cause I'm gunna ride fast, going nowhere
And I left my brain in the past
I'm gunna ride fast
To where I don't care
Faa Faa Faa FA FA FA FA Faa
Datarock
sábado, janeiro 03, 2009
Meu deus
O que quer de mim
O que ele fará comigo?
Um homem bonito que planos
O que Deus me deu
E que ele fará com os seus
Braços de amansar desejos
Boca de beijo
Corpo de tocar
Meu coração muito tonto
Quer sair de mim
Olhos flechando meus zelos
Bem que o meu corpo já me mostrava
Tentação das mais safadas
Sem dor sem penar
Meu Deus, Ave Maria!
Se ele não é um dos Seus
Ninguém mais seria
Ninguém mais seria
Um homem bonito assim
O que quer de mim
O que ele fará comigo
Um homem bonito que planos
O que Deus me deu
E o que ele fará com os seus
Braços de arrancar desejos
Olhos de gato
Sabor de hortelã
Meu coração muito louco
Quer chegar-se em mim
Olhos flechando os meus zelos
Bem que o meu corpo já me mostrava
Conclusão das mais safadas
Sem dor sem penar
Meu Deus, Ave Maria!
Se ele não é um dos Seus
Ninguém mais seria
Ninguém mais seria
Meu Deus, Ave Maria!
Se ele não é um dos Seus
Ninguém mais seria
Ninguém mais
quarta-feira, dezembro 31, 2008
Passagem
não há mais nenhuma algema...
Quando não se pega mais atalhos,
nem que seja somente uma vez,
segue-se em algum caminho,
dito certo,
eu digo fatal...
e mais um dia de término,
num ano,
numa vida.
Num pequeno pixel em alguma galáxia.
Numa consciência, numa ideia, numa imagem...
em todos os sentidos...
livres, alçando sei lá o quê...
sonhando beijos melhores que já sonhei,
Sonho, determino, aliás parece já estar determinado;
parece...
Levanto os olhos para o horizonte,
contemplo tudo e nada.
muita projeção num novo ano.
Como antes, entender o valor do amor
em mim.
segunda-feira, dezembro 29, 2008
ideais palpáveis, circunstanciais...
Vontade, pura vontade.
Não é possível ter dois,
quem diria que haveria tantos caminhos,
e pra que tantos?
Já não sigo dormente...
Não podem simplificar?
Fluxo...fluxo perfeito...
Não leve a mal é que realmente é hilário,
essa vida já me cansa dar-te as costas,
eu vou é te abraçar,
de uma vez por todas...
sábado, dezembro 20, 2008
Retrato

Enfim magra, de olhos verdes, carão amarelo,
Com pés esquisitos, a meia altura,
o cabelo loiro que ilumina a figura,
traz nos dedos o fim vermelho.
No arco do vestido um sorriso
com propenso amor à ternura
e por carecer cor na mesma gravura
o preto, o branco do ciso.
os olhos pararam neste momento
Deram uma volta,
eternizaram o sentimento:
Eis Sâmara, que rabisca verdades ao relento;
lendo um retrato
num dia qualquer que se achou vivendo.
sexta-feira, dezembro 05, 2008
abandono
que coisa...
que insistência em não ser persistente
de não submeter-se aos sacrifícios...
eu já cansei deles..
mas não vou me oferecer como próprio sacrífcio
numa bandeja...
I dont wanna...
ai, ai,
terapia...
mas é tudo tão consciente que agora só me faz bem...
a educação física,
a minha afamada educação física, um diploma,
que pede outro...
ótimo,
a objetividade é um ponto na parede que eu perco
de vista quase sempre...
mas agora não,
2009 é nascimento,
solares...
e...
e....
e.......
nada...
terça-feira, outubro 28, 2008
Amor que morre
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!
Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...
Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.
E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!
Florbela Espanca
Inatingível
E o meu grito subiu, subiu sempre
Até se diluir na distância.
Um pássaro no alto planou vôo
E mergulhou no espaço.
Eu segui porque tinha que seguir
Com as mãos na boca, em concha
Gritando para o infinito a minha dúvida.
Mas a noite espiava a minha dúvida
E eu me deitei à beira do caminho
Vendo o vulto dos outros que passavam
Na esperança da aurora.
Eu continuo à beira do caminho
Vendo a luz do infinito
Que responde ao peregrino a imensa dúvida.
Eu estou moribundo à beira do caminho.
O dia já passou milhões de vezes
E se aproxima a noite do desfecho.
Morrerei gritando a minha ânsia
Clamando a crueldade do infinito
E os pássaros cantarão quando o dia chegar
E eu já hei de estar morto à beira do caminho.
Vinicius de Moraes
quarta-feira, outubro 22, 2008
ícones
diploma
casa
almoço
manhã
quarta
cinza
clichê
clichê
clichê
michê
dinheiro
telefone
créditos
maconha
viagem
sonhos
ação
?
ideal
semiótica
currículo
paraglider
!
crepúsculo
maconha
!
universo
presente
destino
nem existe
fim de ano
mais um ano
amor
sexo
momento sabático
merdas
da minha
cabecinha...
sexta-feira, outubro 03, 2008
Atitude
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.
O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.
Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.
E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.
Cecília Meireles
4º Motivo da rosa
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
Cecília Meireles
quinta-feira, outubro 02, 2008
Apostila de semiótica
Posso senti-la pela manhã já sabendo das possibilidades de chuva,
para todo o dia.
As minhas, possibilidades, estão nubladas familiarizadas com a manhã.
Minhas possíveis representações, chapadas ainda de ontem, faz-me lembrar
o céu, a estrela que caiu e o pedido projeção ridícula e viciosa...
Aquele ritano, que nem é ele..
Vejo-as claras, projeções que não mais enganam-me, e meu desejo é
enforcá-las... eu já faço.
ah...aquela promiscuidade da carne, foi suja...limpa e suja...
Freud explica...
Essa vontade de engolir o mundo, faz-me comer tanta merda.
Usar, brincar com o sexo do outro... Freud explica e a natureza também...
O céu dessa manhã, e o que eu posso fazer se é cinza?
Minhas inúteis percepções apresentadas ao léu, mostram a cara batida que tem,
a banal comparação dos meus versos da quinta cinza da semana passada.
Eu estou como?
Permitindo que assistam-me todo o tempo, parece-me ingenuidade....
Que relação triádica quinta-feira cinza e Sâmara, signos que realmente se fizeram
melancólicos, impossível compreender isso... tal ordem e relação que só eu poderei
representar na síntese presente,
como um regalo, com ou sem chuva,
seguindo ao acaso, iguais aos fogos de ontem e o paraglider que voa sobre minha testa
agora...
Relação triádica perfeitamente concretizada na subjetividade
das possibilidades lógicas...
No fim, eu interpretante, com a apostila de semiótica ao lado.
quinta-feira, setembro 18, 2008
Miércules
à vontade
seja em casa ou na rua,
e essa abertura de demonstrar meu humor com palavras...
sempre a emoção sobre a razão...
mas o que é razão?
é perceber o dia cinza,
é buscar palavras pra definir a explosão no peito...
esse meu humor turbulento sem fazer cerimônias para desmonstrar o descontentamento...
até incoscientemente pra quem tá lá do lado de lá...
sentimentos profundos que insistem em direcionar-me de
maneira...
carece controle,
estabilidade psíquica...
ah que merda...
dias cinzas...
sanidade...
relax, não há nenhuma decisão irrevogável...
miércules está pela metade e cinza...
canais construtivos, cósmicos, lunares...
particulares com juízos de cores e valores sem a qualidade
de dualidade...
ah...coisa agora é dentro pra fora.
ah....ontem que foi miércules...
jueves cinza, entoncés...
dia frio pra
esquentar...
segunda-feira, setembro 08, 2008
Espasmo fumaça
a vida prevalecida
é vencida sem desânimo
extermina-se a política
que só é feita no peito
sem dar comidinha à ideologias sem dono
sem inventar um qualquer que seja
que se eleja
e na fartura de inventar símbolos
chega de inventá-los
quando o cigarro apaga só é
preciso fogo...
A Britney tá de pé,
não conseguia ser...
ser...ah! símbolos.
Dá pra gostar de hip-hop, ah! os negros são ótimos!!
Kanie West e os tambores
pra honrar a pica...muitos batuques... ah! aquele Lupe Fiasco, hum...superstar!
onde vão levam seus batuques, esses tambores que unem a tribo...
e se cantam ao dinheiro e poder é dando adeus à miséria,
ah! os negros americanos, estão em alta...
e que não atirem no Obama, um negro intelectual...ah! é até bonito de se ver...
mas o que importa?
Sou nada,
uma ficção...no trópico sul...
e se o Lula quer eleger uma mulher...
e se as mulheres...e ... e se...ah...
Eu, mulher, tenho uma alma porque a sinto?
eu pertenço a mim, nem sei onde quero ir...
Não invoco a nadie,
tenho debruçado muitas vezes
olhando a cisterna que sou
e minha voz ecoa
no poço que eu tapei.
A cabeça dourada,
os sonhos dourados,
e El dourado?
e pensar, é só o que faz,
se calhar...
Se calhar também não é nada disso.
Na utilidade do fundo,
na futilidade do eco
na cabeleira loura
na cara morena
que faz fumaça
ah! é só espasmo fumaça...
sexta-feira, agosto 29, 2008
Conclusão a sucata !... Fiz o cálculo,
Saiu-me certo, fui elogiado...
Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo...
A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões práticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...
Que teorias há para quem sente
O cérebro quebrar-se, como um dente
Dum pente de mendigo que emigrou ?
Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou...
coisas que eu nem sei
mas se no índice
tudo indicaria qualidades do sentir
eu que dizia sentir tesão
eu que gostaria de
sentir mais tesão
pela vida
e saberia viver
por querer sentir
mais
e mais
e a qualidade primeira
de te ver
de te querer
de sentir teu cheiro
de escrever versos aleatórias
numa campanha política
qualquer...
que passa
e tuas mãos no meu corpo
saberiam dizer o que se faz
necessário
e daí,,,
nada importa
as 04:25 da manhã;.
e agora eu vou embora
eu corro o risco
e não te vi por completo...
Sâmara
Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear ...
No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.
Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.
Mas — esta é boa! — era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação? ...
sábado, julho 19, 2008
Monólogo de uma sombra
A Simbiose das coisas me equilibra.
Pairando acima dos mundanos tetos,
Na existência social, possuo uma arma
Com um pouco de saliva quotidiana
Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Quis compreender, quebrando estéreis normas,
E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Tal a finalidade dos estames!
Será calor, causa ubíqua de gozo,
E o que ele foi: Clavículas, abdômen,
A desarrumação dos intestinos
É uma trágica festa emocionante!
E foi então para isto que esse doudo
Estoutro agora é o sátiro peralta
Brancas bacantes bêbedas o beijam.
No horror de sua anômala nevrose,
Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Cresce-lhe a intracefálica tortura,
É o despertar de um povo subterrâneo!
As alucinações tácteis pululam.
Míngua-se o combustível da lanterna
Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Continua o martírio das criaturas:
Disse isto a Sombra.
Era a elegia panteísta do Universo,
E o turbilhão de tais fonemas acres
sexta-feira, julho 11, 2008
O espelho
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, - uma conjetura, ao menos.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para entro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis...
- Perdão; essa senhora quem é?
- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos...
Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração:
- Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o "senhor alferes". Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...
- Espelho grande?
- Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais. O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?
- Não.
- O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?
- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.
- Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah ! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.
- Matá-lo?
- Antes assim fosse.
- Coisa pior?
- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: - Never, for ever!- For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?
- Sim, parece que tinha um pouco de medo.
- Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único -porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.
- Mas não comia?
- Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. As vezes fazia ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac...
- Na verdade, era de enlouquecer.
- Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéia...
- Diga.
- Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.
- Mas, diga, diga.
- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e...não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir...
Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.
Machado de Assis, Papéis Avulsos
sexta-feira, junho 27, 2008
Viagem de metade
quisera abrasar-me casuística, em virtudes
quantas...
agora tenho meu próprio soro ofídio,
livro-me dos perigos que passaram, e fugitiva,
ainda em sonhos.
De tudo que se viveu,
doenças vaginais
desvarios, espasmos
quantos... múltiplos.
amores liberais
paternais
Passou
Escreverei o fim do meu romance?
a vida de todos os dias mostra-me
com ares duvidosos
ora sim ora não pendularmente
e nem porque sim
e porque não
Indiferença
Fatalismo
Fui rajá numa noite de orgia
ergui um templo hedonista
discuti com viciosos
GRANDES
pequenos
com a alma aleijada, ah! tantas almas,
provei todas.
Em montes mouros
visitei castelos
escoei na lama de alguns pantânos,
onde lagos apareciam-me,
ali, vi lírios rindo para o céu. Meu céu...
Céu, este melancólico que antes pintei,
cinza em meu mais frio inverno
ibérico e alto que vi.
Diarréia
Loucura
Cigarrets, em Porto de Banús,
madrugada sem amor,
paisagem orgasmo transcendente,
sem espelhos...
Ausente
Ao crucificar a imanência,
encontrei
Ressurreição
Morte,
Ressurreição...
Enfim
agora, numa escalada, bestializar-me, lançar-me...
Lembro doloridamente de minhas teorias escapistas, que
permanecem nas malas, prontas...sempre prontas
Iluminadas pela razão, quase catequizada,
de braços abertos ao mundo, para a cidade
barroco-pobre,
em ruelas escuras
imaginando como foi o antes, de mim,
o centro
enfim.
Quero ver meu mundo
displicente
despenhar. .
junto aos meus pássaros alvos
meus voôs contraditórios, e na voz de um
minha busca por aventura, e no
fim
achegar-me ao demônio intelectual das lendas germânicas,
The Lunatic, eu, e eu, e mais, sempre eu,
ocupando espaços vagos duma narrativa, não menos
penosa, muito mais
romântica
foi assim que a fiz,
na tradução da metade, de agora.
domingo, junho 22, 2008
Espasmos pré-ação
posso começar pela Idade Média e chegar engatinhando
na República...
com tanta coisa morta decorada,
em pauta a preparação se faz necessária
obviamente antes da ação...ah, que novidade...
eu tenho um raciocínio??
mas é claro...
precisava sair, os métodos já estão escassos,
a primeira fase foi loucura,
a segunda é a minha carta de alforria.
Ais, a cada instante...
As obras, que obras??
eu brinco,
eu só brinco...
Não vou pensar...
alguém tem poesia pra me dar?
Sim!
Torna-te aquilo que és!
sábado, junho 14, 2008
segunda-feira, junho 09, 2008
domingo, junho 01, 2008
Um imenso prazer em revê-la!
Num imenso salto quantitativo,
a ebulição acontece na temperatura que lhe é devido.
Mas o que fizestes com tua memória?
Porque apagastes suas tantas vidas?
Era quando escondida dentro de ti,
à espera de algum momento ocular,
um Ulisses que iria lhe salvar...
Simplesmente medo e, ridicularmente o tempo parou;
e ali tu continuastes...
Cansada deste humor melancólico, desânimo sem alma que não
conseguias decifrar.
Somente implorava que não fosses agredida, e nem por isso deixou
de fazê-lo....
Transforma-se em nada,
nada na lama,
vende-se, aluga-se,
anula-se, perde-se...
Passa dias tentando entender o que realmente lhe fizeram,
e o que fez de ti...
Chama incessantemente por teu nome, um resgate.
Permanece escondida, abraçando os joelhos, protege a face,
tapa-lhe os olhos...
Espera o pesadelo acabar, entende que fez deste sua vida.
Revendo mentiras que disse para ti, algo que não poderia imaginar,
lugares e pessoas que não puderam se achegar.
O momento chegou, a ebulição acontece, ouço a voz que grita:
Acorda, é a vida!
Ela escuta, levanta, olha-se no espelho, vê tudo que perdeu e ganhou,
mas enfim sabe que se salvou.
Amores que voaram, lutas que acabaram, fantasmas em paz...
Limpando o limo, sentindo o cheiro exalando no ar, para que enfim
sua alma achegasse e pudesse ficar.
Escolhe um caminho, sem atalhos...começa de novo,
costura a própria alma no peito e pensa em tudo que foi
feito,
toma-te,
ama-te,
abraça-te,
alegra-te,
encontra-se.
Bênção
Quando, por uma lei das supremas potências,
O Poeta se apresenta à platéia entediada,
Sua mãe, estarrecida e prenhe de insolências,
Pragueja contra Deus, que dela então se apiada:
– “Ah! tivesse eu gerado um ninho de serpentes,
Em vez de amamentar esse aleijão sem graça!
Maldita a noite dos prazeres mais ardentes
Em que meu ventre concebeu minha desgraça!
Pois que entre todas neste mundo fui eleita
Para ser o desgosto de meu triste esposo,
E ao fogo arremessar não posso, qual se deita
Uma carta de amor, esse monstro asqueroso,
Eu farei recair teu ódio que me afronta
Sobre o instrumento vil de tuas maldições,
E este mau ramo hei de torcer de ponta a ponta,
Para que aí não vingue um só de seus botões!”
E rumina assim todo o ódio que a envenena,
E, por nada entender dos desígnios eternos,
Ela própria prepara ao fundo da Geena
A pira consagrada aos delitos maternos.
Sob a auréola, porém, de um anjo vigilante,
E em tudo o que ele come ou bebe a cada instante
Há um gosto de ambrosia e néctar encarnado.
Às nuvens ele fala, aos ventos desafia
E a via-sacra entre canções percorre em festa;
O Espírito que o segue em sua romaria
Chora ao vê-lo feliz como ave da floresta.
Os que ele quer amar o observam com receio,
Ou então, por desprezo à sua estranha paz,
Buscam quem saiba acometê-lo em pleno seio,
E empenham-se em sangrar a fera que ele traz.
Ao pão e ao vinho que lhe servem de repasto
Eis que misturam cinza e pútridos bagaços;
Hipócritas, dizem-lhe o tato ser nefasto,
E se arrependem por lhe haver cruzado os passos.
Sua mulher nas praças perambula aos gritos:
“Pois se tão bela sou que ele deseja amar-me,
Farei tal qual os ídolos dos velhos ritos,
E assim, como eles, quero inteira redourar-me;
E aqui, de joelhos, me embebedarei de incenso,
De nardo e mirra, de iguarias e licores,
Para saber se desse amante tão intenso
Posso usurpar sorrindo os cândidos louvores.
E ao fatigar-me dessas ímpias fantasias,
Sobre ele pousarei a tíbia e férrea mão;
E minhas unhas, como as garras das Harpias,
Hão de abrir um caminho até seu coração.
Como ave tenra que estremece e que palpita,
Ao seio hei de arrancar-lhe o rubro coração,
E, dando rédea à minha besta favorita,
Por terra o deitarei sem dó nem compaixão!”
Ao Céu, de onde ele vê de um trono a incandescência,
O Poeta ergue sereno as suas mãos piedosas,
E o fulgurante brilho de sua vidência
Ofusca-lhe o perfil das multidões furiosas:
– “Bendito vós, Senhor, que dais o sofrimento,
Esse óleo puro que nos purga as imundícias
Como o melhor, o mais divino sacramento
E que prepara os fortes às santas delícias!
Eu sei que reservais um lugar para o Poeta
Nas radiantes fileiras das santas Legiões,
E que o convidareis à comunhão secreta
Dos Tronos, das Virtudes, das Dominações.
Bem sei que a dor é nossa dádiva suprema,
Aos pés da qual o inferno e a terra estão dispersos,
E que, para talhar-me um místico diadema,
Forçoso é lhes impor os tempos e universos.
Mas nem as jóias que em Palmira reluziam,
As pérolas do mar, o mais raro diamante,
Engastados por vós, ofuscar poderiam
Este belo diadema etéreo e cintilante;
Pois que ela apenas será feita de luz pura,
Arrancada à matriz dos raios primitivos,
De que os olhos mortais, radiantes de ventura,
Nada mais são que espelhos turvos e cativos!”





Alberto García-Alix

